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  • O Movimento Perpétuo da Ilusão

    Nossa empreitada em traduzir todo o livro biográfico de Bob Dylan, enfim se iniciou… Hoje iremos colocar na íntegra, a tradução do prefácio da obra de Bob Dylan, intitulada: Mixing Up The Medicine (Misturando os remédios), da editora Callaway. Livro esse, saído diretamente do Bob Dylan Center, localizado em Tulsa, Oklahoma, EUA. E onde teremos o grande privilégio de poder traduzir toda a obra de forma integral em nosso site profissional.

    Todo mundo já sabe que existem zilhões de livros sobre mim, já publicados ou que serão publicados em breve. Então, estou incentivando qualquer pessoa que já me conheceu, me ouviu ou até mesmo me viu, a entrar na onda e escrever seu próprio livro. Vai que alguém tem um ótimo livro dentro de si.

    — Bob Dylan, 2011.

    Por seis décadas, o mundo tem se confrontado com Bob Dylan e sua jornada musical. Suas conquistas artísticas o marcam como uma das figuras culturais mais importantes da história. Emergindo um pouco da América do pós-guerra, Dylan fundiu um conjunto expansivo de influências musicais e literárias, em um corpo incomparável de canções que demonstram “novas expressões poéticas dentro da grande tradição da canção americana”, como foi reconhecido por seu Prêmio Nobel de Literatura de 2016. Do álbum Bob Dylan, de 1962, ao lançamento de Shadow Kingdom em 2023, e mais vividamente em suas performances ao vivo, a obra de Dylan provou ser dinâmica e em constante evolução, por causa de sua criatividade inquieta e sempre em busca da essência de uma canção. E assim como ele continuamente criou tendências apenas para quebrá-las, o próprio Dylan também se tornou objeto de fascínio infinito. Frequentemente visto como um enigma para sua música, Dylan resistiu a essa interpretação — ou a qualquer outra aliás — fazendo da sua própria reinvenção uma arte, ao mesmo tempo em que também assume riscos e desafia expectativas. Como artista, Bob Dylan permanece fiel apenas à sua musa, com os olhos firmemente fixos na linha do horizonte.

    No entanto, para um artista tão relutante em se deter no passado, o que é notável é que muito dele ainda sobrevive. Na verdade, a existência de áudios, documentos e outros registros que constituem o arquivo de Bob Dylan, não era de conhecimento geral até 2 de março de 2016, quando o jornal do The New York Times, divulgou a notícia de que uma organização filantrópica junto a uma universidade particular de Oklahoma, nos EUA, o haviam adquirido. A notícia logo despertou muita curiosidade, não apenas sobre o conteúdo da coleção, mas também sobre a decisão de colocar os novos arquivos em Tulsa. No entanto, para que isso de fato viesse à acontecer, havia toda uma lógica anterior e um precedente também.

    Pois em 2013, a fundação da família George Kaiser — organização sem fins lucrativos — sediada em Tulsa, adquiriu o arquivo do cantor folk americano Woody Guthrie, um dos primeiros ídolos de Dylan, estebelecendo assim, o Centro Woody Guthrie, na região, como parte de um projeto de revitalização cultural em toda a cidade. Enquanto isso, a Universidade de Tulsa também havia acabado de concluir uma nova instalação de pesquisa no Museu Gilcrease, para facilitar o acesso aos seus importantes acervos, que incluem centenas de milhares de artefatos de povos indígenas de toda a América; uma cópia da Declaração de Independência; uma cópia da Proclamação de Emancipação assinada por Abraham Lincoln e uma coleção incomparável de obras de arte dedicadas ao oeste americano também. E assim, os arquivos de Bob Dylan também vieram a se destacar dentro desse arcabouço da história americana, quando enfim, a tão sonhada aquisição foi anunciada:

    Fico muito feliz que os meus arquivos, que foram coletados durante todos esses anos, finalmente encontraram um lar e serão incluídos junto com as obras de Woody Guthrie e, especialmente, ao lado de todos os valiosos artefatos das Nações Nativas Americanas. Para mim, faz muito sentido e é uma grande honra também.

    — Bob Dylan.

    Mesmo com um olhar superficial, fica bem claro que o Arquivo do Bob Dylan, logo seria uma coleção enorme e incomparável, representando um dos maiores, mais importantes e mais valiosos arquivos dedicados a um único artista. Abrangendo toda a carreira musical de Dylan, desde as suas primeiras gravações até sua apresentações mais recentes; O Arquivo, que continua crescendo, contém milhares de rascunhos de manuscritos; centenas de cadernos e blocos de notas; dezenas de fotografias; centenas de horas de filmagens de vídeo e incontáveis horas de gravações de estúdio, ensaio e até mesmo apresentações ao vivo também.

    Os arquivos, no entanto, são por sua própria natureza incompletos, e no caso de Dylan, não há exceção alguma nisso. Pois nos primeiros anos de sua carreira em plena ascenção, Dylan parecia estar sempre em movimento. E assim, coube as editoras e gravadoras — que historicamente não se importavam muito com o arquivamento daquelas obras — começar a coletar seus escritos e gravações também. Assim, os primeiros rastros de manuscritos de letras, começam com “Chimes os Fredom” do álbum Another Side of Bob Dylan de 1964, e termina com canções feitas para o álbum Tempest de 2012, que foi o último antes da aquisição completa de toda a coleção. No entanto, em sua totalidade, o Arquivo oferece revelações sobre diversas histórias que a grande maioria pensa que conhece tão bem, ao memso tempo em que, também fornece informações essenciais sobre o processo criativo de um dos maiores compositores da história da música popular.

    Em maio de 2022, o Arquivo do Bob Dylan mudou-se para sua sede atual, no recém-inaugurado Centro Bob Dylan, tornando-se parte do vibrante distrito artístico que emerge no centro de Tulsa, como a face pública do Arquivo. O Centro apresenta um conjunto de histórias do acervo, concebidas para iluminar diferentes dimensões da longa e sempre mutável carreira de Dylan, sejam elas a composição e o desenvolvimento de algumas canções específicas; sua relação com o estúdio de gravação, ou até mesmo, suas muitas influências declaradas também. Com contribuições de músicos como, por exemplo, Elvis Costello; da poetisa laureada Joy Harjo; da cineasta Jennifer LeBeau; do escritor Tim Parks; da atriz Kimber Elayne Sprawl; e por fim, do historiador Sean Wilentz, entre muitos outros também; o Centro emprega uma multiplicidade de vozes para contar a história de um artista que se mostrou relutante em analisar ou até mesmo em falar em defesa de sua própria obra. Em outras palavras, o Centro é uma visão visceral, dinâmica e progressista da arte de Dylan, vindo a se tornar um espaço para qualquer pessoa com o mínimo de interesse no homem ou em sua música, econtrar a devida inspiração nas reviravoltas de sua contínua Odisseia Criativa.

    Bob Dylan: mixing up the medicine expande as exposições inaugurais do Centro, adotando sempre uma abordagem curatorial semelhante na apresentação de material do arquivo — seja ele complementar, divergente ou conflitante — juntamente com uma gama de vozes também. Sempre que possível, itens do próprio Arquivo foram selecionados para ilustrar vinhetas e, quando necessário, esse material fundamental foi complementado com itens fascinantes adquiridos posteriormente pelo próprio Arquivo, incluindo as enormes coleções de fãs de Bill Pagel e Mitch Blank, bem como de amigos e colegas de Dylan, como é o caso de Cynthia Gooding, Mell e Lillian Bailey e Bruce Langhorne também. E em alguns casos, até mesmo materiais especiais e exclusivos de apoiadores do Arquivo também foram integrados à narrativa visual para ajudar a contextualizar episódios específicos no longo panorama da história de vida de Dylan.

    O livro é pontuado por ensaios de diversas personalidade artísticas e acadêmicas de renome, que vieram exclusivamente a Tulsa, a convite de Mihael Chaiken, então curador do Arquivo de Bob Dylan, e do poeta e acadêmico Robert Polito também, para vivenciarem o Arquivo em primeira mão.

    Na concepção inicial do livro, tanto Chaiken como Polito, dizem:

    “Cada um desses distintos escritores, artistas e músicos, foram convidados a escolherem um único item do Arquivo de Bob Dylan, seja ele um rascunho de letra, uma imagem fotográfica, um caderno, uma gravação descartada, um fragmento de material efêmero, algo que os atraísse, fascinasse, comovesse, intrigasse ou até mesmo inspirasse, e assim, escrever um breve ensaio sobre isso [por aqui]”.

    Muitos dos ensaios deste volume, provêm dessas primeiras visitas a Tulsa, nos primeiros três anos e meio de existência do Arquivo.

    Ao invocar o expírito criativo de Dylan, estes ensaios contribuem para uma mistura incomum do texto interpretativo que ajuda Bob Dylan:mixing up the medicine à explorar os cantos mais empoeirados do passado de Dylan, para entender assim, sua relação com o seu corpo de trabalho presente, mas sempre em evolução. Além disso, ainda temos no livro, diversos textos descritivos e expansivos também, que acabam contextualizando os itens selecionados, lançando sempre uma nova luz sobre alguns episódios familiares de Dylan; desenvolvendo sempre uma surpreendente rede de temas e conexões extraídos do vasto universo do poeta também. Ao longo desse livro, os colegas e colaboradores de Dylan acabam ganhando voz, por meio de extensas entrevistas conduzidas pelo Bob Dylan Center ou extraídas das entrevistas completas nunca antes ouvidas para o documentário de Martin Scorsese, chamado, No Direction Home: Bob Dylan. O livro resultante é uma espécie de biografia de dentro para fora, que permite que o Arquivo conduza a história de Dylan. Como tal, estabelece inúmeras maneiras de olhar para Bob Dylan, sua música e seu lugar no imaginário cultural mundial. A constante ao longo de todo esse livro — seja no conjunto de obras conhecidas ou no material inédito contido nesse volume — é a arte e o gênio de Dylan, definidos não apenas por um intelecto singular, mas também por uma dedicação cuidadosa de sua própria arte.

    No entanto, como convém a um artista que certa vez disse: “A arte é o movimento perpétuo da ilusão”, o Bob Dylan de seu arquivo, como o Bob Dylan da vida Real, pode parecer totalmente fora de alcance. Embora isso possa frustar aqueles que buscam respostas fáceis, o rico e vasto acervo do Arquivo de Bob Dylan, oferece uma oportunidade sem precendentes para finalmente fazermos as perguntas certas a Dylan e sua música também. Esperamos que este livro levante boas questões.